Impacto ocorre especialmente nos setores de comércio e
serviços, que respondem por 79% dos empregos formais do estado| Foto: Magnus
Nascimento
A proposta de acabar com a escala 6×1 – seis dias de trabalho por um de descanso – e reduzir a jornada máxima semanal de 44 horas para 40 acendeu o alerta para possíveis impactos na economia. Empresas do Rio Grande do Norte podem ter custo adicional de R$ 3 bilhões por ano, segundo estimativas do Instituto Fecomércio RN (IFC) e da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) divulgadas nesta quarta-feira (27). O mesmo estudo aponta para a possível perda de 7.800 postos de trabalho formais no curto e médio prazo.
Para a Fecomércio-RN, o impacto ocorre especialmente nos setores de comércio e serviços, que respondem por 79% dos empregos formais do estado. O custo adicional anual no setor de serviços pode chegar a R$ 1,9 bilhão, enquanto o comércio potiguar recebe o impacto anual de R$ 1,1 bilhão.
Ainda como reflexo da mudança, o estudo projeta aumento de preços de até 13%, e
alta de 21% na folha salarial. Os cálculos levaram em consideração dados de
Caged, Rais e CNC.
A proposta avançou na Câmara dos Deputados nesta
quarta-feira (27), quando a comissão especial que analisa a PEC – que reduz, em
duas etapas, a jornada de trabalho no Brasil – aprovou o texto apresentado pelo
relator, o deputado federal Leo Prates (Republicanos-BA). A proposta prevê a
redução para 40 horas, com dois dias de descanso semanal, em uma transição de
um ano.
Segundo a Fecomércio-RN, parte do aumento dos custos operacionais das empresas
deve ser repassado ao consumidor. “Empresas menores podem reduzir vínculos
formais e recorrer a contratos intermitentes, terceirização ou MEI; e empresas
com margens abaixo de 5% são mais vulneráveis ao fechamento”, explica a
entidade.
“O estudo considera que os efeitos sobre emprego e custos ocorreriam no curto e
médio prazo, especialmente durante o período de adaptação. Há avaliação de que
alguns setores precisariam de dois a três anos para reorganizar custos e
processos”, diz a Federação.
O economista Arthur Néo, vice-presidente do Conselho
Regional de Economia do RN, afirma que o debate sobre o fim da escala 6 x 1
exige análise. Na visão dele, a proposta deveria ser implementada de forma
gradual e negociada coletivamente, a começar por setores que estão mais
preparados para os impactos.
Pela perspectiva social, Néo afirma que a proposta traz benefícios. “É legítimo
o debate sobre a melhoria da qualidade de vida do trabalhador e a modernização
das relações de trabalho”. No viés econômico, porém, há “impactos sobre a
produtividade, os custos operacionais e a capacidade das empresas de se
adaptarem a essa nova jornada”.
Se a mudança não vier acompanhada de ganhos de produtividade, os preços de
produtos e serviços devem ser pressionados. Entre as grandes empresas, explica
o economista, o impacto é sentido, mas elas operam com maior margem de lucro e
podem adaptar melhor suas operações.
Nos pequenos negócios, em que a margem se estreita, pode
haver mais demissões. “Caso eles não consigam, vai aumentar a informalidade e
ocorrer desemprego”, observa Néo. No médio e longo prazo, é possível que eles
recorram a uma substituição tecnológica.
Zeca Melo, superintendente do Sebrae-RN, afirma que “é preciso avaliar com
responsabilidade os impactos sobre os pequenos negócios”. A discussão, diz ele,
“é legítima e faz parte da evolução das relações de trabalho”.
“Setores como comércio, serviços, turismo e alimentação dependem de escalas
mais flexíveis e podem enfrentar aumento significativo de custos operacionais”,
continua. Segundo Melo, pequenos negócios tendem a sentir mais os efeitos
dessas mudanças, porque trabalham com equipes reduzidas e multifuncionais.
Pesquisa no RN
Segundo levantamento do IFC, que ouviu 1.305 trabalhadores formais no RN, o
apoio à proposta cai quando os entrevistados conhecem esses efeitos. Embora
exista apoio inicial, 91,3% dos favoráveis têm conhecimento médio ou baixo
sobre suas implicações concretas. A pesquisa tem margem de erro de 2,8 pontos,
com nível de confiança de 95%.
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