No documento, a entidade aponta que o fenômeno está se
intensificando e há mais de 90% de chance de o fenômeno atingir intensidade
muito forte entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027.
Do montante, R$ 60,5 milhões correspondem a prejuízos no setor privado e R$ 7,7 milhões, no setor público. Estado teve 25 decretos de anormalidade. Foto: Adriano Abreu
O Super El Niño já causou prejuízo de R$ 68,2 milhões
para o Rio Grande do Norte, entre os meses de julho e agosto, segundo
levantamento realizado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM). Do
montante, R$ 60,5 milhões foram no setor privado e R$ 7,7 milhões no setor
público. Ao todo, o estado registrou 25 decretos de anormalidade, dos quais 92%
foram decorrentes de seca ou estiagem. Foram afetadas 62,3 mil pessoas.
Os números foram levantados pela área de proteção e
defesa civil da CNM, a pedido da reportagem da TRIBUNA DO NORTE, e integram os
dados do Boletim El Niño 2026/2027 realizado pela entidade. No documento, a
entidade aponta que o fenômeno está se intensificando e há mais de 90% de
chance de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre o segundo semestre
de 2026 e o início de 2027.
“Em julho, as temperaturas da superfície do Oceano
Pacífico Equatorial ficaram bem acima da média, confirmando o fortalecimento do
fenômeno. Segundo a NOAA, o El Niño deve continuar ganhando força até o fim do
ano e há 69% de probabilidade de que, entre outubro e dezembro de 2026, alcance
uma intensidade histórica, podendo superar eventos registrados desde 1950”,
aponta a CNM no boletim.
Em todo o país, a entidade aponta que os prejuízos
econômicos ultrapassaram R$ 8,2 bilhões de julho a agosto, sendo R$ 6,5 bilhões
em prejuízos privados, R$ 1,6 bilhão em prejuízos públicos e R$ 182,8 milhões
em unidades habitacionais. No recorte regional, o maior prejuízo foi acumulado
pela região Nordeste, correspondente a R$ 3,9 bilhões.
Os impactos nos municípios nordestinos, conforme aponta a
CNM, acontecem em virtude do predomínio de seca e estiagem, com agravamento das
condições hídricas, além de episódios pontuais de chuvas intensas, com
alagamentos, deslizamentos, transbordamento de canais, desalojados e danos a
habitações e obras públicas.
No Rio Grande do Norte, os setores mais afetados foram
pecuária e agricultura, com, respectivamente, R$ 35,4 milhões e R$ 24,4 milhões
de prejuízo financeiro. A concentração acompanha o cenário nacional, onde os
segmentos também aparecem com os maiores impactos financeiros em virtude do El
Niño 2026/2027.
Em resposta à reportagem da TRIBUNA DO NORTE sobre os
prejuízos estimados pela CNM, o titular da Secretaria da Agricultura, da
Pecuária e da Pesca (Sape) do Rio Grande do Norte, Guilherme Saldanha, informou
que os dados só podem ser levantados pelo IBGE. Ele observou, contudo, que a
pasta mantém preocupação com a quadra chuvosa do próximo ano no estado.
“As nossas chuvas ocorrem, na maior parte do estado, no
primeiro semestre. No interior, especialmente, elas iniciam em fevereiro e
seguem até abril ou maio. Essas chuvas podem ocorrer antes e podem terminar
depois. Já para a região Leste e Litoral, o inverno começa bem depois,
iniciando por volta de abril e se estendendo até junho, julho ou agosto”,
esclareceu.
De acordo com Guilherme Saldanha, o Governo do Estado
mantém um grupo de trabalho diante da possibilidade de ocorrência de seca e um
conjunto de projetos já foi encaminhado ao Governo Federal, caso seja
confirmada a persistência do El Niño até fevereiro, o que pode gerar impactos
especialmente na agropecuária e abastecimento humano.
O secretário destacou, ainda, que estão sendo
viabilizadas diversas obras hídricas, como a Adutora do Seridó e Adutora do
Agreste, garantindo água para municípios dessas regiões: “Eu acredito que isso
vai amenizar muito a ocorrência da seca, se ela ocorrer, no ano que vem. Mas a
Secretaria da Agricultura também tem ações que já estão ocorrendo e envolvem,
por exemplo, a ampliação da execução de barragens subterrâneas, perfuração e
instalação de poços”.
A reportagem da TRIBUNA DO NORTE tentou contato com a
Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (Femurn) para uma avaliação da
entidade sobre o impacto para os municípios do Rio Grande do Norte, além das
medidas defendidas para melhor enfrentamento ao El Niño 2026/2027, mas não
recebeu retorno até o fechamento desta edição.
Perdas
A irregularidade da quadra chuvosa de 2026 no Rio Grande
do Norte tem provocado dificuldades para alguns setores produtivos do estado,
como a cadeia leiteira. De acordo com o presidente do Sindicato das Indústrias
de Leite e Produtos Derivados do RN (Sindleite/RN), os produtores das regiões
Central, Seridó e Oeste sofreram perdas de até 25% no faturamento no primeiro
semestre do ano. A chamada agricultura de sequeiro (cultivo de culturas sem
irrigação) também tem sido afetada, segundo Erivam do Carmo, presidente da
Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores do estado (Fetarn).
Erivam avalia que os pequenos agricultores do Seridó e
Alto Oeste são os mais afetados. “Além da escassez hídrica, tem a questão das
altas temperaturas, que fazem com que a água evapore rapidamente”, afirma. Já
Túlio Veras, do Sindleite, diz que as chuvas apareceram no segundo trimestre do
ano, mas de forma irregular. A falta de planejamento forrageiro e de
aprimoramento de tecnologias de convivência com a seca, de acordo com ele,
contribuíram para a formação de um cenário difícil.
“De fato, tivemos um começo de 2026 ruim. A chuva não
chegou no primeiro trimestre e o faturamento da produção de leite para
produtores do Seridó e do Oeste caiu de 20% a 25%. É preciso entender que nós
estamos em uma região que sofre com a estiagem há séculos. Então, é um cenário
que carece de um planejamento melhor. Apesar da queda no primeiro semestre, a
gente espera que a curva de faturamento volte a subir nos últimos seis meses do
ano graças ao fato de que alguns produtores começaram a utilizar as águas do
São Francisco para irrigação”, aponta Túlio Veras.
Ele ressalta, portanto, a necessidade de uma maior área
irrigada com produção de biomassa (silagem de milho, sorgo ou feno), além de
apoio como ampliação de crédito para os produtores, como formas de enfrentar o
cenário. A Fetarn, por sua vez, diz que tem buscado enaltecer políticas de
convivência com o semiárido como forma de auxiliar os produtores diante das
perdas. “Temos buscado políticas de melhor gestão das águas e cobrado melhor
estrutura da Secretaria de Recursos Hídricos. As águas do São Francisco chegaram,
mas falta a integração das bacias e a distribuição das águas para as famílias.
Outro ponto é a questão da silagem, que ainda é precária”, disse Erivam do
Carmo.
O secretário Guilherme Saldanha explicou que o Governo do
Estado possui um Grupo de Trabalho que trabalha permanentemente com a
perspectiva da seca. “Temos um conjunto de ações e projetos para o
enfrentamento, como a perfuração e instalação de poços, construção de barragens
subterrâneas, além de duas obras importantíssimas para o abastecimento humano,
que são a Adutora do Seridó e a Adutora do Agreste, em execução”, afirma o
secretário.
Ele diz que um relatório elaborado pela pasta está sendo
ajustado, com informações sobre a produção da agricultura potiguar para o ano
que vem, levando em conta os efeitos do El Niño. O meteorologista Gilmar
Bristot disse que o fenômeno deve impactar a produção agrícola no estado,
especialmente em 2027. “Os impactos do El Niño para este ano têm menos
relevância, uma vez que de setembro a dezembro praticamente não chove no RN”,
aponta.
“Mas para 2027, eu diria que o período chuvoso poderá ser prejudicado, dificultando a agricultura, embora haja uma pequena possibilidade de instabilidade no Nordeste nos meses de novembro, dezembro e janeiro, caso ocorra uma entrada de frentes frias no norte de Minas Gerais e no sul da Bahia, conforme aconteceu em 2003. No entanto, não é isso que se desenha. É importante dizer que ainda há muito a ser confirmado e a situação de chuvas não é algo a ser facilmente elaborado”, esclarece o meteorologista.
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