Do Brasil de Fato
No meio de uma semana esvaziada no Congresso Nacional, a
bancada ruralista conseguiu avançar com mais uma ameaça à preservação ambiental
e aos povos do campo. Desta vez, sob a justificativa de que iria proteger a
agricultura familiar.
Numa sessão de apenas 39 minutos na última quinta-feira
(2), a Câmara dos Deputados aprovou o regime de urgência para o projeto de lei
2.898/2025, que altera a Lei dos Crimes Ambientais e estabelece um prazo de até
24 meses para que o infrator se regularize antes da aplicação de sanções. Ou
seja, seria necessário esperar dois anos para serem aplicadas punições como
apreensão de animais, produtos e equipamentos, destruição ou inutilização de
produtos, suspensão da venda e da fabricação de produtos ou embargo das
atividades ao desmatador.
Encabeçado pelo deputado federal Luiz Mosquini (MDB-RO),
o projeto de lei foi apresentado sob pretexto de proteger a agricultura
familiar, mas, na verdade, pode beneficiar grandes proprietários de terras e
dar chance para mais violações, segundo a avaliação do Observatório do Clima.
“A agricultura familiar necessita ter atenção prioritária
em termos de fomento a atividades ambientalmente sustentáveis. Não é isso que
traz essa proposta. A agricultura familiar foi utilizada como argumento nesse
projeto de lei para enfraquecer o controle dos órgãos do Sisnama [Sistema
Nacional do Meio Ambiente], permitir a continuidade de práticas que constituem
infração e inviabilizar a cessação dos danos ambientais. É mais uma afronta do
Congresso contra o meio ambiente”, afirma Suely Araujo, coordenadora de
Políticas Públicas do Observatório do Clima.
O deputado usa como parâmetro de pequenos agricultores
propriedades com até 4 módulos fiscais. Os módulos fiscais são unidades de
medida para as propriedades, fixados pelo Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra), que variam entre 5 hectares e 110 hectares, dependendo
do município. Em algumas regiões, eles são bem grandes. No estado de Mosquini,
Rondônia, um módulo é de 60 hectares. Assim, fazendas com até 240 hectares, ou
336 campos de futebol, seriam beneficiadas.
Em nota técnica, o observatório aponta ainda que, na
prática, o PL “amplia significativamente o alcance da proposta e pode impedir o
embargo de imóveis onde tenham ocorrido desmatamentos ilegais de grande
extensão, favorecendo a continuidade da infração e aumentando o risco de novos
desmatamentos”.
Para os críticos à proposta, a legislação já tem proteção
para o pequeno agricultor. Na seção da Câmara, o deputado Helder Salomão
(PT-ES) lembrou o decreto 6.514/2008, que estabelece que, no caso de áreas
irregularmente desmatadas ou queimadas, o embargo não alcança as atividades de
subsistência. “Se flexibiliza uma legislação de maneira desnecessária sob o
pretexto de proteger o pequeno agricultor, mas, para o pequeno, para
subsistência, ele já está protegido”, diz.
Mosquini e o ‘Pacote da
Destruição’
A manobra feita pela bancada ruralista em plena Copa do
Mundo se insere no chamado “Pacote da Destruição”, um conjunto de medidas
legislativas para enfraquecer a legislação socioambiental brasileira em
diversas frentes, dos agrotóxicos a terras indígenas. Mosquini, que é
presidente de uma comissão da Frente Parlamentar da Agropecuária, sempre está à
frente dessa constante pressão do agronegócio contra a pauta ambiental.
Em maio, na chamada “Semana do Agro”, o deputado tentou
emplacar uma proposta que proibia embargos baseados exclusivamente em detecção
remota de supressão de vegetação, ou seja, restringia a fiscalização por
satélites, prática comum na vigilância dos órgãos ambientais. “É como não usar
radar para controlar velocidade”, disse o coordenador do MapBiomas, Tasso
Azevedo, ao Brasil de Fato.
O texto aprovado pela Câmara retirou a vedação direta,
mas passou a exigir notificação prévia antes da aplicação de medidas
cautelares, ou seja, uma manobra semelhante à que está sendo proposta agora,
dando tempo para que o desmatamento prossiga.
O estado de Mosquini acumulou mais de 611 mil hectares de
vegetação nativa perdidos desde 2019 e ostentou médias anuais de desmatamento
acima de 100 mil hectares durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), político
que o deputado apoia. A área desmatada caiu de 145 mil hectares em 2022, no
último ano de Bolsonaro, para 15 mil hectares no ano passado.
O maior doador individual do deputado é o empresário e
fazendeiro Sérgio Botelho Teixeira, sócio-diretor da Italac, que recebeu uma
multa de R$ 5,5 milhões do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis (Ibama) em dezembro de 2025 por desmatamento de reserva
legal em uma fazenda no Tocantins. Desde 2018, Teixeira doou R$ 250 mil para
campanhas eleitorais de Mosquini.
A unidade da Italac fica em Jaru (RO) e tem uma
capacidade instalada de 1,3 milhão de litros, produzindo diversos derivados de
leite, do composto lácteo ao doce de leite.
À BBC News Brasil, o deputado disse que não tinha conhecimento da multa aplicada à fazenda do empresário. A defesa de Teixeira disse que a multa aplicada pelo Ibama ocorreu devido a um engano em registros cadastrais da fazenda e que o assunto está sendo analisado pela Justiça Federal.
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