quarta-feira, 9 de setembro de 2026

RN contém gastos após frustração de R$ 722 milhões na arrecadação do 1º semestre

A maior frustração ocorreu no Fundo de Participação dos Estados (FPE), cuja arrecadação ficou R$ 509,8 milhões abaixo da meta prevista até junho.

A controladora-geral do Estado, Luciana Daltro, estima uma economia no custeio de R$ 120 milhões a R$ 170 milhões. Foto: Arquivo TN

No mesmo dia em que determinou um corte de 25% nas despesas de custeio dos órgãos estaduais, o Governo do RN publicou dados que mostram uma frustração de R$ 722,1 milhões na arrecadação prevista para o primeiro semestre. O resultado consta no Demonstrativo das Metas Bimestrais de Arrecadação da Receita Ordinária do Tesouro, divulgado no Diário Oficial do Estado de 5 de setembro.

A maior frustração ocorreu no Fundo de Participação dos Estados (FPE), cuja arrecadação ficou R$ 509,8 milhões abaixo da meta prevista até junho. Também ficaram abaixo do esperado o IRRF, com insuficiência de R$ 112,7 milhões; o ICMS, em R$ 43,9 milhões; os royalties do petróleo, que somaram R$ 54,8 milhões abaixo da meta; o IPVA, em R$ 20,3 milhões; e o IPI-Exportação, em R$ 2,3 milhões. Parte dessas perdas foi compensada por receitas acima da meta, como aplicações financeiras, FEP, LC 176/2020 e ITCD. O saldo entre insuficiências e excessos resulta em arrecadação R$ 722,1 milhões abaixo da meta no primeiro semestre.

Após o registro dessa frustração de receita, o Governo anunciou um pacote de contenção de gastos que prevê a redução de 25% nas despesas de custeio de seus órgãos e entidades até dezembro – o que inclui gastos essenciais como água, energia elétrica, aluguéis, telefonia e limpeza.

O decreto determina que os órgãos estaduais apresentem, até 14 de outubro, propostas para reduzir em 25% as despesas de custeio ainda neste ano. No mesmo prazo, eles devem enviar à Sefaz a programação financeira mensal de obras contratadas.

Além disso, o decreto proíbe, até 31 de dezembro, novas despesas e atos como a nomeação de servidores, ressalvadas reposições essenciais na saúde, educação e segurança ou decisões judiciais, locações, concessão de reajustes ou aditivos em contratos, pagamento de indenização por licença-prêmio na aposentadoria e emissão de diárias e passagens – salvo exceções justificadas.

A Controladoria-Geral do Estado do RN (Control-RN) estima que, em quatro meses, a economia pode girar entre R$ 120 milhões e R$ 170 milhões, considerando “a meta de redução do custeio passível de revisão e a experiência positiva de medida semelhante adotada em 2024”.

Segundo Luciana Daltro, controladora-geral do Estado, a estimativa é preliminar e “será refinada após a consolidação dos planos apresentados pelos órgãos. O resultado efetivo dependerá das despesas já assumidas, da capacidade de redução de cada unidade e das excepcionalidades necessárias à preservação dos serviços essenciais”.

Ela explica que as excepcionalidades não serão automáticas. Cada solicitação deverá apresentar justificativa objetiva e documentada, demonstrando, por exemplo, o interesse público; a indispensabilidade da despesa; o risco concreto de prejuízo à população ou à continuidade do serviço; e a compatibilidade orçamentária e financeira. “O objetivo não é promover cortes indiscriminados, mas reduzir aquilo que pode ser revisto sem comprometer os serviços essenciais”, diz Daltro.

Sindicatos avaliam riscos aos servidores

Na visão de entidades que representam os servidores do Estado, a medida de contenção do custeio pode prejudicar os profissionais e os serviços públicos. A coordenadora-geral do Sindicato dos Servidores Públicos da Administração Indireta do RN (Sinai-RN), Dyanne Azevedo, avalia “com grande apreensão” o decreto.

“Entendemos que se trata de uma medida de austeridade que repete uma lógica já conhecida: direcionar o peso do ajuste sobre o serviço público, penalizando, mais uma vez, o funcionalismo e comprometendo a qualidade dos serviços prestados à população”, afirma.

Para ela, a suspensão da concessão de diárias e passagens pode afetar o cumprimento das atividades que demandam deslocamento dos servidores para o interior do estado. Já a restrição a novas nomeações gera o agravamento imediato de um déficit crônico, diz Dyanne Azevedo.

“Essa decisão unilateral e sem diálogo também abala a confiança na relação entre servidores e Estado e será combatida pelo Sindicato com todas as ferramentas políticas e jurídicas disponíveis”, conclui.

Já o Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público da Administração Direta do RN (Sinsp-RN) descreve a medida como uma “ação eleitoreira” que prejudica tanto os servidores públicos quanto a população, “que vai ser afetada na hora de procurar atendimento nos serviços oferecidos pelo estado”.

A entidade avalia que muitos serviços podem ser afetados, causando a diminuição de horário de atendimento e o aumento de filas, por exemplo. “Na hora do ‘arrocho fiscal’, sempre sobra para os servidores mais humildes”, afirma o Sinsp-RN.

Especialista vê “corte agressivo e profundo”

Na visão de economistas ouvidos pela reportagem, a edição do Decreto nº 35.868/2026 reflete um sinal de alerta fiscal no encerramento da gestão estadual, mas é preciso ver os impactos nessa curta janela temporal de quatro meses. Arthur Néo, vice-presidente do Conselho Regional de Economia, avalia que a medida é necessária “diante da perda contínua de receita pública, mas é essencialmente reativa”.

O economista Arthur Néo diz que corte foi obrigatório. Foto: Divulgação

“Trata-se do acionamento de ‘freios de arrumação’ previstos pela Lei de Responsabilidade Fiscal para evitar o descumprimento das metas fiscais do encerramento de exercício”, explica o economista. Como grande parte do orçamento público é composta por despesas obrigatórias de difícil redução imediata – como folha de pagamento de pessoal –, o peso do ajuste recai sobre o custeio operacional.

“Uma meta de 25% de corte é extremamente agressiva e profunda. Na contabilidade pública, as despesas de custeio constituem o motor de funcionamento diário do Estado – manutenção de prédios públicos, insumos operacionais, vigilância, limpeza, energia, combustível, entre outros”, diz Arthur Néo.

Na visão dele, a queda nas receitas correntes pressiona diretamente a capacidade de honrar compromissos financeiros e “confirma que a edição do decreto não foi opcional, mas uma exigência legal para adequar a execução orçamentária à arrecadação real do ano”.

O economista Helder Cavalcanti avalia a medida como um movimento necessário de prudência. “Quando o Governo restringe novas despesas, viagens, determinados aditivos, veículos e outras despesas administrativas, está sinalizando a necessidade de exercer um controle mais rigoroso sobre o dinheiro disponível até dezembro”, complementa.

Quanto à frustração de receitas, ele pondera que os dados apresentados ainda são insuficientes para dimensionar com precisão o tamanho do desequilíbrio fiscal e evita cravar uma análise sobre o dado. Segundo Cavalcanti, a medida de contenção pode gerar economia, mas é preciso considerar o tempo, sendo uma janela relativamente curta para que algumas medidas produzam resultados financeiros relevantes.

Ele avalia que algumas despesas têm resposta mais imediata, como redução de viagens, passagens e combustíveis, e outras são mais rígidas. “Há espaço para atuar prioritariamente sobre despesas administrativas que não estejam diretamente relacionadas à entrega dos serviços essenciais”, afirma. “Um decreto dessa abrangência é, sem dúvida, um sinal de atenção sobre a situação financeira no encerramento do exercício. O decreto, isoladamente, não permite afirmar que o Governo não conseguirá fechar o ano no azul”, conclui Helder Cavalcanti.

Publicação de dados aconteceu com atraso

A publicação do demonstrativo ocorreu após reportagem da TRIBUNA DO NORTE, da última quinta-feira (3), mostrar que o Governo não estava cumprindo o prazo de publicidade do documento. Segundo o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), a publicação é obrigatória e decorre da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) do Estado.

Pela Lei de Diretrizes Orçamentárias, os dados deveriam ter sido publicados até o quinto dia do mês seguinte ao encerramento do bimestre, ou seja, até 5 de julho. Os dados do quarto bimestre deveriam ser publicados até 5 de setembro, mas a publicação está atrasada. Segundo a Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz-RN), os relatórios poderão ser trabalhados a partir do próximo dia 10 (quinta-feira).

De acordo com o TCE/RN, “em que pese essa publicação extemporânea” dos dados do 3º bimestre, a Sefaz-RN havia dado ciência aos titulares “dos demais Poderes e Órgãos autônomos acerca da frustração de receitas ocorrida no período, a fim de permitir a adoção das medidas necessárias à limitação de empenho”.

“O monitoramento das metas bimestrais de arrecadação tem como propósito verificar se a realização das receitas poderá comportar as metas de resultado primário e nominal estabelecidas para o exercício”, explica o TCE-RN.

A ausência de publicação do Demonstrativo das Metas Bimestrais de Arrecadação da Receita Ordinária do Tesouro pode acarretar em punições aos gestores públicos. Em casos mais graves, pode gerar até reprovação das contas anuais.

·         Arrecadação no 1º semestre

Receitas abaixo da meta:

FPE: R$ 509,76 milhões
IRRF: R$ 112,69 milhões
ICMS: R$ 43,88 milhões
Royalties do petróleo (Lei nº 9.478/1997): R$ 28,86 milhões
Royalties do petróleo (Lei nº 7.990/1989): R$ 25,99 milhões
IPVA: R$ 20,29 milhões
IPI-Exportação: R$ 2,27 milhões

Receitas acima da meta:

Aplicações financeiras: R$ 8,48 milhões
FEP: R$ 7,07 milhões
LC 176/2020: R$ 4,94 milhões
ITCD: R$ 1,13 milhão

Saldo:

Arrecadação R$ 722,12 milhões abaixo da meta no primeiro semestre.


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