Mercado
de trabalho potiguar bate recorde de ocupação e registra menor taxa de
desocupação da série histórica, mas avanço se concentra em serviços e setor
público, enquanto indústria, construção e agropecuária perdem espaço
Fernando
Azevêdo
Repórter
O
Rio Grande do Norte terminou 2025 com recorde de pessoas ocupadas (1,36 milhão)
e a menor taxa de desocupação da série histórica (8,1%), mas os números também
revelam uma mudança no perfil do mercado de trabalho potiguar. Enquanto
serviços e administração pública avançaram, setores estratégicos como
indústria, construção e agropecuária perderam ocupações.
Os
dados são do módulo Características Adicionais do Mercado de Trabalho da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua),
divulgados nesta quarta-feira (23) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
Em
relação a 2012, o nível de ocupação subiu para 47,8% em 2025 no RN, e o
percentual de trabalhadores associados a sindicato caiu de 17,1% para 10,4%.
Com taxa de desocupação de 8,1%, em termos relativos, o RN ocupou a 6ª
colocação no Brasil e a 5ª na região Nordeste.
Damião
Ernane, chefe da Seção de Disseminação de Informações do IBGE no RN, explica
que os dados trazem um retrato estrutural do mercado de trabalho brasileiro. As
informações sobre os anos de 2020 e 2021, marcados pela pandemia de covid-19,
não foram divulgadas.
Entre
2012 e 2025, o grupo da administração pública, defesa, educação e saúde
absorveu 120 mil novos ocupados no RN, enquanto os setores de informação,
comunicação e atividades financeiras adicionaram outros 60 mil postos. Na
contramão, a indústria geral perdeu 41 mil vagas, e tanto a construção civil
quanto a agropecuária registraram um recuo de 27 mil postos cada.
O
economista Ediran Teixeira, supervisor técnico do Dieese, explica que o
crescimento do mercado de trabalho potiguar também reflete o crescimento
demográfico dos últimos 13 anos, sendo que a pesquisa contabiliza as pessoas
com idade acima de 14 anos.
“O
crescimento natural da população afeta o próprio mercado de trabalho, que
também tenderá a acompanhar esse crescimento, a depender de outros fatores
sociais e econômicos”, diz Teixeira. “É preciso analisar as políticas públicas
que vigoram nesse período e que atraíram investimentos para alavancar o
crescimento do PIB, dentre elas a mudança da política de isenção fiscal do
governo do estado”, completa.
Setores
perdem postos; secretaria cita ações
Na
avaliação de Roberto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do RN
(Fiern), a indústria enfrenta um cenário de perda de competitividade frente a
estados vizinhos. Ele atribui o fechamento de vagas fabris a uma combinação de
fatores estruturais, “como a redução da capacidade de investimento do Estado em
infraestrutura e logística, a desatualização de normas estratégicas para o
desenvolvimento estadual”.
Serquiz
pontua que, considerando as informações sobre emprego formal divulgadas pelo
Ministério do Trabalho e Emprego, o ano de 2026 registra “sinais de perda de
dinamismo na capacidade de geração de empregos, movimento semelhante ao
verificado no ano anterior”.
Para
a Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), a queda na ocupação
agropecuária reflete uma transformação estrutural que combina mecanização,
mudanças climáticas e mudanças demográficas.
“Esse
movimento não deve ser atribuído a uma causa isolada, mas à combinação de
mudanças produtivas, demográficas, climáticas e econômicas ocorridas ao longo
de 13 anos”, diz a entidade.
A
Faern pondera que a modernização exige mão de obra mais qualificada e que o
desafio é atrair e manter profissionais preparados para um campo mais
tecnológico. “A migração de jovens, a urbanização, o envelhecimento da
população e a busca por ocupações com maior estabilidade, remuneração e acesso
a serviços reduzem a disponibilidade potencial de trabalhadores para as
atividades rurais.”
Além
disso, o perfil do trabalhador potiguar apresenta ganhos de qualificação. A
parcela de ocupados com pelo menos o ensino médio completo subiu de 42,7% para
66,3% entre 2012 e 2025, com destaque para a proporção com ensino superior, que
saltou de 9,5% para 25,1%.
A
Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social
(Sethas-RN) aponta que o governo estadual tem buscado alinhar essa força de
trabalho escolarizada às novas demandas econômicas, especialmente aquelas
voltadas para a transição energética e tecnologias de informação.
“Além
de ampliar o acesso ao trabalho, precisamos preparar trabalhadores para as
novas ocupações, aproximar qualificação das demandas das empresas e fazer as
oportunidades chegarem aos diferentes territórios”, diz a pasta, que cita uma
série de iniciativas voltadas à qualificação e atração de investimentos.
Segundo
a secretaria, o foco das políticas públicas, como o programa Qualifica Mais RN,
não é apenas recuperar vagas do passado, mas preparar profissionais para um
mercado que exige maior especialização e letramento digital, além de priorizar
a autonomia econômica das mulheres, cuja participação na população ocupada
cresceu para 41,8%.
Outro
ponto é o avanço na formalização de trabalhadores por conta própria. Com 25,7%
de registro no CNPJ, o RN lidera o Nordeste nesse indicador. Alinne Dantas,
gerente de Gestão Estratégica do Sebrae-RN, avalia que o microempreendedor
individual (MEI) serviu como porta de entrada fundamental para essa
formalização, impulsionada majoritariamente pelas mulheres.
“O
avanço é bastante relevante porque mostra uma mudança estrutural no mercado de
trabalho potiguar [e] também está relacionado à expansão do microempreendedor
individual no estado. Entre 2020 e 2025, o número de MEIs no Rio Grande do
Norte cresceu 79,9%, e atualmente eles representam cerca de metade das empresas
potiguares”, diz Alinne Dantas.
O
desafio, diz, é apoiar esses empreendedores após a abertura do CNPJ, focando em
gestão, produtividade e acesso a mercados, visto que mais da metade dos
ocupados no estado (54,7%) trabalha em micro e pequenas empresas, estruturas
que exigem constante capacitação para garantir a sobrevivência e
sustentabilidade.
Apesar
dos indicadores positivos, o cenário desperta análises críticas sobre a
qualidade do trabalho gerado. Ediran Teixeira ressalta que o aumento da
ocupação e a redução do desemprego são reflexos de uma economia que dobrou sua
riqueza, mas alerta para o processo de desindustrialização e para a
precarização das relações laborais.
O
economista aponta que a queda na taxa de sindicalização fragiliza o poder de
barganha dos trabalhadores, especialmente em um mercado dominado por pequenas
empresas. Teixeira critica a "pejotização" e o trabalho intermitente,
que, muitas vezes, distanciam o trabalhador da proteção sindical.
Fonte:
IBGE
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