Por Alan Bueno*
Dois mineiros, duas redes, um mesmo palco. Nikolas
Ferreira (PL) e Ana Elisa (PT) terminaram o primeiro turno de 2026 como os
deputados federais mais votados de Minas Gerais – e a rivalidade entre os dois
virou termômetro da disputa de influência que atravessa a eleição presidencial,
que será decidida no próximo dia 25 entre o senador Flávio Bolsonaro e o
presidente Lula.
Os números mostram a assimetria. Nikolas cravou 3,1
milhões de votos, mais que o dobro dos 1,49 milhão de 2022, e tornou-se o
deputado mais votado da história da Câmara. Ana Elisa, aos 21 anos, obteve 524
mil votos na primeira disputa – é a mulher mais votada de Minas para a Câmara e
o nome mais votado do PT no país. Só em Minas, ela superou os votos de Romeu
Zema à Presidência no Brasil inteiro.
A rivalidade ficou explícita em 8 de outubro, quando
Nikolas compartilhou antigos posts com declarações polêmicas de Ana Elisa,
quando ela tinha 17 anos. Segundo a estreante na política, suas falas foram
descontextualizadas, mas pediu desculpas a eventuais ofendidos. O episódio
aconteceu logo depois de a deputada eleita aparecer ao lado de Lula como sua
nova conselheira, para ajudá-lo a se conectar com juventude brasileira, e o
partido passou a organizar mega eventos de ruas nas principais capitais do
país, capitaneados especialmente por jovens.
A minha aposta é a de que Ana Elisa tem tudo para se
tornar a maior influenciadora de esquerda do país. Seu desafio é transformar
seguidores em rede ativa que compartilha, defende e responde em tempo real, como
tem feito o deputado André Janones através do canal do WhatsApp “Exército de
Lula” – que, aliás, já sofreu duas suspensões por determinação do presidente do
TSE, ministro Kássio Nunes Marques, em mais uma polêmica sobre a politização de
decisões judiciais.
Ana Elisa pode ajudar a rejuvenescer a imagem do PT. E
virar trunfo nesta reta final do segundo turno presidencial, se tiver
capacidade de dialogar com o jovem que hoje está no MBL e no Partido Missão –
público que rejeita a política tradicional, vive na internet e valoriza
autenticidade mais do que rótulos. Vale destacar, em uma disputa tão acirrada
como atual, o peso que teria a conquista dos mais de 2,6 milhões de votos
recebidos por Renan Santos no primeiro turno.
O PT não precisa de mais seguidores, e sim de um público
engajado que aja: dar protagonismo a quem tem audiência, organizar a militância
digital e falar de problemas concretos – escala 6×1, renda, trabalho por
aplicativo – na linguagem de quem os vive. Ana Elisa pode ser o rosto de uma
nova esquerda, que não pede licença à burocracia partidária para inovar. Se o
partido der espaço a esse símbolo em vez de enquadrá-lo, cresce de verdade
entre os jovens, onde hoje perde.
Atualmente, Nikolas influencia mais: seis vezes mais
votos, alcance nacional e capacidade de pautar o debate pesam mais que qualquer
métrica de seguidores. Mas Ana Elisa é a novidade de 2026 – saiu do zero a meio
milhão de votos em sete meses de partido e já ajuda a reorganizar a comunicação
digital de Lula.
O segundo turno dirá se essa influência vai além dos
próprios eleitores: se a campanha presidencial melhorar nas redes, ela ganha
crédito; se Nikolas seguir ditando a pauta, a distância segue grande. Por ora,
chamá-la de “Nikolas da esquerda” diz mais sobre o perfil do que sobre o
tamanho.
*Estrategista digital, especialista em IA e tecnologia para campanhas eleitorais

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