Para uma plateia de empresários a nove dias da eleição, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) falou que é preciso escolher
“entre o
regime democrático ou a barbárie”, disse que tem feito um governo com
responsabilidade fiscal e prometeu fazer uma reforma política e do Judiciário
se for eleito para um quarto mandato. O presidente evitou em se comprometer com
medidas para a redução dos juros ou para redução dos gastos públicos, anseios
do mercado, criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pediu
“seriedade” dos empresários.
— Quem de vocês se lembra quando a economia brasileira
voltou a crescer acima de 3%? Cresceu em 2010 e quando eu voltei agora para
presidente da República. Eu peguei esse país com duas crises. Primeiro, quando
eu ganhei a eleição em 2002, os economistas mostravam a dívida externa, nós
acabamos com isso. Por uma questão simples: não é respeitoso um país que não
sabe tomar conta das suas contas. A minha professora de economia foi a Dona
Lindu, não faça dívida que você não pode pagar, e é assim que a gente vem
tocando esse Brasil todos estes anos — falou, citando sua mãe. As informações
são do jornal O GLOBO.
O evento foi realizado em São Paulo, organizado pelo Esfera
Brasil e pelo Grupo Prerrogativas, e na lista de convidados havia cerca de 500
empresários, advogados e representantes de entidades da sociedade civil. Entre
os empresários presentes, estão nomes como Joesley Batista, da JBS, Gustavo
Pimenta, presidente da Vale, Marcos Almeida, da Brookfield, Sérgio Zimerman, da
Petz, Gustavo Furtado, da Centauro, Diego Barreto, do iFood, Silvia Penna, da
Uber.
O petista citou como crises seguintes a de 2008, que
atingiu sobretudo os Estados Unidos, e a guerra do Irã, no mandato atual, que
aumentou o preço do petróleo em todo o mundo, para ressaltar medidas que ele
tomou para reduzir os impactos para a economia do país. Em seu discurso, ainda
falou que sonha em ter “um país de classe média”, e que não se contenta “com um
salário de R$ 2 mil”, acrescentando que é preciso ter “responsabilidade social
junto com a responsabilidade fiscal”.
— E vocês empresários precisam entender que quanto mais
eles ganharem, vocês vão ganhar mais. Nós, em apenas 12 anos, encontramos de
volta 33 milhões de pessoas que estavam passando fome, ou seja, se a gente não
tem responsabilidade social junto com a responsabilidade fiscal, a gente não
resolve o problema do país. Então a gente tem que decidir que país que a gente
quer, um país que seja governado apenas para 35% da população, ou para 100% da
população. E vocês sabem quem são os candidatos e sabem quantos têm condição de
governar esse país. Vocês estão olhando para o cara que governou o estado mais
rico do país por 13 anos, e o presidente que já governou por 12 anos. Qual é a
escolha? — indagou.
Em diversos momentos, o chefe do Executivo mencionou que
o pleito deste ano não definirá apenas o novo governante, mas o tamanho da
influência dos Estados Unidos no país.
— Eu quero dizer para vocês o que está em jogo: é se a
gente vai querer fortalecer o regime democrático ou fazer a barbárie no nosso
país — disse — É importante que vocês tenham seriedade. Ou vocês votam em
alguém que quer ser brasileiro ou votam em alguém que vai beijar a bandeira americana
todo dia. Faltam dez dias para vocês escolherem o que vocês querem, e vocês
sabem o que pode acontecer nesse país, sabem que o Trump está fazendo aposta
que ele vai ser dono da América Latina. E eu quero dizer que, enquanto eu for
presidente, o dono disso aqui se chama povo brasileiro e ninguém vai
interferir. Isso vale para os empresários brasileiros, porque um país que se
preza tem uma indústria muito forte.
Antes do encontro, Lula assinou uma Medida Provisória
(MP) para proibir as bets e sites de apostas no geral no Brasil. Além da MP, o
presidente apresentará ao Congresso Nacional um projeto de lei para
criminalizar as bets e seus operadores. A medida provisória tem vigência
imediata e precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para
seguir valendo. Já o projeto de lei só entra em vigor após ser avaliado pelos
parlamentares.
Este foi o segundo encontro do presidente com empresários
durante a campanha eleitoral. Em 31 de agosto, o petista recebeu um grupo de
empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada, mas foi um encontro mais
reservado, que reuniu 16 pessoas. Na ocasião, houve queixas dos participantes
sobre a alta taxa de juros do país (hoje a Selic está em 13,75% ao ano) e sobre
os gastos públicos.
Minerais críticos e taxas de juros
Alguns empresários se dirigiram a Lula e fizeram apelos de seus setores para o
governo. O presidente da Vale falou da importância do Brasil explorar mais as
terras raras, onde há minerais críticos que poderiam ajudar na “transição
verde”, inclusive importante insumos que são essenciais para diversos segmentos
no mundo inteiro.
— Uma reflexão que a gente tem feito na indústria é que a
gente tem uma oportunidade única de liderar essa transição verde na oferta dos
minerais críticos — disse.
Jorge Cury, presidente do Secovi-SP, entidade que
representa o mercado imobiliário do estado, agradeceu ao presidente e à Caixa
Econômica pelo aumento nos lançamentos de imóveis nos últimos anos, mas
reclamou da taxa de juros, que impacta no valor dos financiamentos de imóveis.
Atualmente, a taxa Selic está em 13,75% ao ano.
— Eu pergunto se nós vamos ter ao longo desses próximos
quatro anos alguma chance de reduzir os juros para permitir que a classe média
possa ter acesso ao imóvel. O grande motor desse país foi sempre a classe
média. E a gente precisa recuperar isso, eu sei do seu pragmatismo e sua
sabedoria, vai achar o caminho para que a gente tenha uma redução de alguma
maneira desses juros, fica o pedido — falou .
Nesta sexta, Lula estava acompanhado de vários
integrantes do governo, como o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), e os
ministros Dario Durigan (Fazenda), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços), Miriam Belchior (Casa Civil), Esther Dweck
(Gestão e Inovação), além dos presidentes da Caixa Econômica Federal, Carlos
Vieira, do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, e do BNDES, Aloizio Mercadante.
Os ex-ministros da Fazenda Fernando Haddad (PT) e do Planejamento, Simone Tebet
(PSB), também participaram.
Ministros acenam ao mercado
Integrantes do governo Lula reforçaram os resultados do governo na área
econômica, e acenaram para os representantes de diversos segmentos em suas
falas. Alckmin destacou feitos do governo e falou sobre “o que vem pela
frente”, mencionando desafios do país como a energia para possibilidade o
avanço da inteligência artificial e a reserva de “minerais raros estratégicos”
para o carro elétrico e a energia eólica. Na sua fala, também se dirigiu a Bia
Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e elogiou a atuação
do tucano na economia.
— Temos desafios pela frente e oportunidades, com a
(exploração na) Margem Equatorial, o Brasil já é o sétimo maior produtor do
mundo de petróleo, e vamos avançar. Tem candidato querendo adiar a Reforma
Tributária. Ela desonera a exportação, pode aumentar em 17% a exportação, então
o nosso desafio é implementá-la já a partir de 1º de janeiro. Temos a questão
fiscal. Precisamos unir os outros poderes. Não é possível salários de R$ 300
mil, R$ 400 mil, isso é pago pelos assalariados. Tem estado que um deputado tem
146 cargos comissionados. O Senado paga seguro-saúde a seus senadores, 46 vezes
o que paga o SUS. Temos que nos indignar perante o que está errado, e o presidente
Lula é o homem vocacionado para fazer o pacto entre Legislativo e Judiciário —
falou.
O ministro da Fazenda Dario Durigan mencionou três
desafios que o governo federal tem que enfrentar: segurança pública,
institucionalidade e taxa de juros. Ele citou a Operação Carbono Oculto,
realizada em conjunto pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Receita
Federal e outros órgãos, e cuja terceira fase foi deflagrada na última
quinta-feira (24), mirando empresas que lavam dinheiro para o crime organizado
no setor de combustíveis. Ele prometeu que, “para o futuro, a União vai entrar
mais na segurança pública”, com a “inteligência financeira do Ministério da
Fazenda” para “moralizar” o mercado de fundos e “alguns poucos integrantes do
sistema financeiro”.
— Já o tema das contas públicas, é importante fazer uma
distinção entre o que nós fizemos, que foi muito, e o que precisa ser feito.
Quando a gente olha para o resultado do governo anterior, do que a gente pegou,
tinha muita coisa errada — falou. — Não teve nenhum projeto enviado pelo
governo e aprovado pelo Congresso sem a previsão de receita ou adequação
orçamentária. Diferente do governo, que agora se diz liberal, fez no passado.
As poucas medidas que foram aprovadas pelo Congresso (sem previsão orçamentária),
nós fomos ao STF exigir a responsabilidade fiscal. A responsabilidade fiscal é
do Executivo, mas também do Congresso e do Judiciário e, nesse precedente da
desoneração da folha, o STF disse com todas as letras que o Congresso não pode
aprovar medidas sem previsão orçamentária — falou.
Durigan disse que vai fazer “revisão periódica” de
isenções fiscais para empresas, e “estabelecer um limite”. Já para os juros,
admitiu que a taxa está alta, mas que essa mudança deve ser feita “de modo
estruturado”
– Esse esforço envolve sim uma melhoria fiscal. O
discurso fiscal tem que ser feito na política do dia a dia, com transparência e
com espírito republicano e, com isso, vamos seguir numa trajetória de melhorar
as contas públicas. Temos que seguir dando eficiência para o gasto público,
isso tem que se intensificar. Dinheiro público tem que ser gasto com
austeridade, temos que revisar política pública, que seja pago para quem
precisa, e não para dar privilégio e penduricalho. Com justiça social e combate
a privilégios — afirmou Durigan.
O ministro Márcio Elias Rosa destacou resultados do
governo Lula na área econômica, especialmente no comércio internacional,
afirmando que “o Brasil com protagonismo e não um mero coadjuvante no
desenvolvimento”. Ele ainda lembrou da taxação que os Estados Unidos
implementou sobre os produtos brasileiros.
— Frente ao tarifaço, o Brasil respondeu com o Brasil
Soberano. Nós respondemos ao tarifaço com a diversificação do mercado e com a
negociação, sem se afastar jamais dos interesses dos brasileiros – falou.
O presidente da Caixa, Carlos Vieira, ressaltou a
importância do banco para a área imobiliária, com os financiamentos de imóveis,
sobretudo no âmbito do Minha Casa Minha Vida. A presidente do Banco do Brasil,
por sua vez, lembrou que foi a primeira mulher a presidir a instituição em mais
de 200 anos, e comparou os créditos disponibilizados ao agronegócio do país
pelo governo atual e pela gestão anterior, de Jair Bolsonaro (PL), por meio do
Plano Safra, e falou das operações do banco voltadas para a indústria,
sobretudo para aqueles que exportam, e endereçou indiretamente as preocupações
do mercado com a responsabilidade fiscal do governo Lula.
— Voltamos a fazer o papel que um banco público precisava
fazer. Em nenhum momento o desenvolvimento do pequeno empreendedor até a
agroindústria, de uma pequena empresa até uma multinacional, deixou de ser
feito. Há muito a ser feito, com responsabilidade. A gente entende que há
questões a serem corrigidas e nós temos um presidente que sabe todos os números,
de cada setor da economia brasileira, e que exige de nós o cuidado, carinho e a
responsabilidade com a gestão das nossas empresas — falou Tarciana.
O advogado Marco Aurélio Carvalho, do grupo
Prerrogativas, que ajudou a organizar o evento, fez um dos discursos mais duros
contra Flávio Bolsonaro, chamou ele de “miliciano” e reconheceu que “muitas das
pessoas da plateia têm diferenças” com Lula, mas disse que “não há no país
nenhuma condição de ter um país seguro e previsível” se não for “pelas mãos desse
homem”.