Por
Rudolfo Lago – Correio da Manhã
O cientista político Benedito Tadeu Cesar, professor
aposentado da Universidade do Rio Grande do Sul (URGS), observa que o entrevero
com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reúne ao mesmo tempo os dois
temas principais do debate eleitoral brasileiro: segurança pública e aumento do
custo de vida. Trump recebeu o candidato do PL à Presidência, senador Flávio
Bolsonaro (RJ), no Salão Oval da Casa Branca.
Dois dias depois, classificou o PCC e o Comando Vermelho
como organizações terroristas. Se tivesse parado aí, considera Tadeu Cesar,
talvez fosse um tento importante para Flávio. Mas uma semana depois, Trump
ameaça o Brasil com um novo tarifaço de 25% por razões diversas, inclusive o
Pix.
Para o cientista político, mesmo com os riscos quanto à
soberania brasileira, a classificação de terrorismo para as facções tem apelo
sobre o eleitorado de direita que Flávio almeja, especialmente com relação às
camadas mais pobres, que mais diretamente convivem com o crime organizado. Os
riscos estão relacionados a possíveis efeitos sobre empresas brasileiras,
imigrantes nos EUA, etc. A nova sobretaxação, porém, traz novo prejuízo.
O tarifaço 2 ameaçado agora por Trump tem o mesmo
potencial de prejuízo do primeiro. Naquela ocasião, o irmão de Flávio, Eduardo
Bolsonaro, alardeava que a sobretaxação era consequência das conversas que teve
com o governo dos EUA. Ao comemorar com vigor algo que impactava a economia
brasileira, Eduardo viu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançar seus
melhores momentos de popularidade. Depois, Flávio encostou em Lula na corrida
eleitoral, mas agora começa de novo a perder terreno.
O Pix foi implementado no país quando o pai de Flávio,
Jair Bolsonaro, era presidente. Trump agora ameaça uma conquista que o país
abraçou. Segundo dados do Banco Central, 93% da população usa o sistema. O
Brasil tornou-se o segundo país do mundo em volume de transações instantâneas,
perdendo somente para a Índia. O Pix movimentou R$ 35,4 trilhões no ano
passado.
Tadeu Cesar observa que a sensação de aumento no custo de
vida é hoje o grande calo enfrentado por Lula. Essa sensação vem do alto
endividamento das famílias, com as taxas de juros. Se o tarifaço, porém,
impactar nos preços e aumentar a inflação, Lula poderá empurrar para Flávio a
conta do custo de vida.
Flávio sabe do risco que a situação produziu. Tanto que
se apressou em escrever uma carta ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio,
pedindo que o país não sobretaxe o Brasil. Lula também sabe da oportunidade.
Tanto que envolveu Flávio diretamente na decisão tomada pelos Estados Unidos.
Para Tadeu Cesar, o novo fato complica o que já não era
fácil para Flávio. A pesquisa Real Time Big Data divulgada na segunda (1o) já
mostrava que o encontro com Trump não reduzira a queda do candidato do PL nas
pesquisas. Ele, porém, observa que isso pode não ser necessariamente um trunfo
para Lula.
No caso, Benedito Tadeu Cesar observa o início de uma
transferência de votos à direita para o candidato do PSD, Ronaldo Caiado. Na
simulação de segundo turno, ele aparece em rigoroso empate com Lula, 43% a 43%.
Lula também empata na margem de erro com o candidato do Novo, Romeu Zema, mas é
Caiado quem pode assustar.
Caiado tem a seu favor, observa o professor, o fato de
ser candidato pelo PSD, hoje um dos maiores partidos do país. Comandado por
Gilberto Kassab, que se esforça para ser o suprassumo do centro político. Para
Tadeu Cesar, se ele cresce, tem potencial tração para levar consigo o voto
moderado.
O cientista político pondera que Caiado segue precisando conseguir chegar ao segundo turno. No quadro estimulado, ele só tem 6%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 31%. Mas a novidade da pesquisa não pode ser ignorada. A soma das suas próprias características com as do PSD pode ser para Lula um desafio novo.
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