Por Leonardo Sakamoto
Do UOL
Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ataca o
projeto que prevê o fim da escala 6×1, o deputado federal Alfredo Gaspar
(PL-AL), seu companheiro de chapa presidencial, votou a favor da PEC. Para
Flávio, o projeto “vai gerar desemprego em massa, gerar aumento do custo de
vida e prejudicar vários trabalhadores”. Para Alfredo, o projeto vai trazer
“mais dignidade para o trabalhador”, “mais tempo com a família” e “mais
qualidade de vida”.
A proposta de emenda à Constituição foi aprovada, em
maio, na Câmara dos Deputados por 461 votos a 19, no primeiro turno, e por 472
a 22, no segundo, puxada pelo presidente Hugo Motta (Republicanos-PB).
Pesquisa Meio/Idea, divulgada na última quarta (5),
aponta que 43% dos eleitores deixariam de votar em um candidato que não apoia o
fim da escala, enquanto outros 31% ainda não sabem ou não responderam. Apenas
26% dizem que votariam nesse candidato mesmo assim. A margem de erro é de 2,5
pontos.
Alfredo Gaspar surfou seu voto, postando no Instagram que
apoiou a mudança por acreditar na “valorização do trabalhador, no equilíbrio
das relações de trabalho e na construção de um país mais justo para todos”.
Se colocada em votação antes da eleição, o próprio Flávio
Bolsonaro, mesmo agindo contra para não ajudar Lula, acabaria votando a favor
dela ou se abstendo de olho nas urnas. Na Câmara, muitos dos que fizeram
campanha contra a proposta ajudaram a aprová-la, como Nikolas Ferreira (PL-MG).
A questão é o que os parlamentares fazem para impedir que o projeto seja posto
em votação.
No Senado, o fim da 6×1 ainda aguarda análise pela
Comissão de Constituição e Justiça. A indefinição ocorre em um momento em que
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) está brigado com o Palácio do Planalto e tem
apoiado a oposição, de olho em mais um mandato como presidente da Casa. Um
jantar com Lula, nesta semana, ainda não conseguiu azeitar a relação.
Na tentativa de bloquear o trâmite da mudança, Flávio
Bolsonaro e outros senadores endossaram uma proposta de emenda constitucional
de Rogério Marinho (PL-RN), o coordenador de sua campanha à Presidência da
República. Ela, que já está tramitando no Senado, pode, caso aprovada, zerar os
benefícios trazidos pelo fim da escala e pela redução da jornada de trabalho de
44 para 40 horas.
A PEC da Hora Trabalhada permite remunerar a pessoa por
demanda de uma forma ainda mais dura do que a jornada intermitente. Ou seja, o
trabalhador seria pago somente nos momentos em que a empresa precisasse
estritamente dele. Escala e jornada seriam definidas entre patrão e empregado.
A justificativa é ampliar a liberdade, mas, dado o
desequilíbrio de poder entre patrões e empregados, uma enorme massa de
trabalhadores pobres terá a liberdade de optar entre um emprego muito ruim e o
desemprego. A negociação com a faxineira que pega três conduções para ir ao
serviço vai terminar com: “se a senhora não quiser, tem quem queira”.
Mesmo com a campanha contrária ao fim da escala 6×1,
tocada por parte do empresariado e por políticos da direita nos últimos meses,
a quantidade de brasileiros a favor da mudança é a mesma que em julho de 2025:
69%. Já os contrários caíram de 26% para 22%. O dado é da pesquisa
Genial/Quaest divulgada em julho. A margem é de dois pontos percentuais.
Portanto, ela será aprovada no Senado, caso Alcolumbre a destrave, tal como fez Hugo Motta na Câmara. O exercício de futurologia é baseado no fato inconteste de que dois terços do Senado podem ser renovados na eleição deste ano. E político pode ser muita coisa, mas não é burro.
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